Contexto
Histórico
O
séc. XVII francês se estende, para o crítico e para o historiador,
desde 1610 (morte de Henrique IV), a 1715 (morte de Luis
XIV). É o século do Rei Sol e da monarquia absoluta, quando se
desenvolvem a literatura clássica, protegida pelo soberano, e as
academias. No âmbito das letras, sobressai o teatro trágico de
Corneille e de Racine, ao lado das comédias de Molière; Boileau
elabora a teoria da arte clássica; La Fontaine produz suas fábulas;
La Bruyère dedica-se à crítica e La Rochefoucauld às máximas, ao
lado da oratória sagrada de Bossuet. No campo das ideias,
a preciosidade porfia com os libertinos, a filosofia de Descartes se
contrapõe ao jansenismo de Pascal e, para culminar, eclode a Querela
dos Antigos e dos Modernos, a respeito de ideais e modelos para a
arte.
França,
que saiu vitoriosa da Guerra dos Cem Anos, iniciou a Idade Moderna
consolidando sua unidade nacional, e expandindo-se à Itália, onde
se chocou com o interesse dos espanhóis. Por isso, durante os
séculos XVI e XVII havia uma grande inimizade entre França e
Espanha, que alcançou seus maiores pontos com as lutas entre
Francisco I e Enrique II da França, com Carlos V e Felipe II da
Espanha.
A
reforma protestante aproveitou a desatenção dos monarcas franceses
em suas questões internas para penetrar no território inimigo. As
diferenças entre católicos e protestantes (hugonote) foram causa
frequente de discórdia e guerras civis. A monarquia, de crença
católica, devia mediar entre uns e outros. O predomínio católico
era inegável. Um caso conhecido e curioso foi o de Enrique IV (1589
– 1610), rei protestante caçado pela maioria católica por abjurar
o Protestantismo.
O
século XVII se reparte em dois reinados: Luis XIII (1610 – 1643) e
Luis XIV (1643 – 1715). O primeiro deixou a política nas mãos do
cardeal Richelieu, o qual se propôs a um objetivo triplo: a) Atacar
a nobreza submissa ao Rei, retirando seus privilégios e ainda
levando-os à forca; b) perseguir os protestantes; c) ir contra os
austríacos, sem se importando em se juntar aos protestantes europeus
para tal fim, ainda que persiga os franceses.
Esta
mesma política foi seguida durante o reinado de Luis XIV.
Por ser menor de idade, sua mãe, a espanhola Ana de Áustria confio
os assuntos do estado ao cardeal Mazarino. Luiz XIV (o Rei Sol) leva
o absolutismo real ao seu conceito, ao debilitar cada vez mais a
nobreza e incrementar a cultura de monarcas franceses e seus válidos.
Richelieu e Mazarino outorgam
substância de ajuda aos monarcas franceses e seus válidos.
Richelieu e Mazarino otorgaram substanciosas de ajuda: ajuda a
artistas e poetas. Tal foi o caso com Corneile, Molière e Racine.
Paris
se converteu no centro de atenção cultural mundial. Com Luis XIV,
os franceses passaram os italianos. A Corte do Rei Sol foi um centro
de produção de grandes espetáculos. Especialmente os luxuosos
foram conhecidos como Os Prazeres da Ilha Encantada, que ocorreu no
Palácio de Versalhes, de 7 a 13 de maio de 1664. Neles atuou Molière
no papel do deus Pã. O gosto italiano imposto na Corte a afeição
pela música e ao canto. Se isto aumentou a inclinação francesa
pelo espetáculo de baile, não tem de estranhar que estes
componentes estivessem presentes em qualquer festa da corte. Assim se
explica o auge da comédia-ballet, subgênero que Molière teve que
cultivar, seguindo instruções dos maestros de música e de
coreografia, especialmente do italiano Lully. No seu início, final e
entreatos, este tipo de comédia deixava ocorrer números de mimo,
dança e canto. Essa crença comum que o ballet, unido à máscara,
fez nascer na França da Idade Média, derivado das mascaradas de
Carnaval. Tais máscaras foram muito apreciadas por Francisco I e os
monarcas do século XVI.
Mas
estas forças expansivas de espetáculo teatral encontraram uma
posição muito diversa e persistente. O teatro foi atacado pela
hierarquia eclesiástica de Paris. Que foi também, de modo mais
furioso, pelos jansenistas. As ideias
jansenistas assumiam o pessimismo mais radical ao homem, com suas
teorias sobre a corrupção da natureza humana pelo pecado original,
sobre a predestinação do homem ao céu ou ao inferno, etc. Por tudo
isso, e particularmente pela ignorância de sua sorte futura, o homem
devia evitar toda ocasião de pecado, em especial uma das mais
funestas: o teatro.
Por
outro lado, existiam diferentes sociedades mais ou menos secretas,
como a célebre Companhia do Santo Sacramento, que decidiu retirar
algumas obras de cartel à favor do rei, como o famoso caso de “O
Tartufo” de Molière.
Para
a compreensão da arte francesa, devemos falar na formação de uma
disciplina rigorosa de pensamento, que começa com o filósofo
Descartes. Segundo ele, a razão, o pensamento, é o único que nós
podemos duvidar. Por isso, a razão deve ser a guia e senhora do
homem em suas relações com o mundo e com Deus. Neste culto
cartesiano, a razão se impõe também na arte, mas nem todos
estiveram de acordo. Daí, a eterna polêmica que ainda persiste na
França, apesar dos ataques à razão por parte das vanguardas
modernas surgidas do simbolismo e do Surrealismo.
Pessoas
importantes:
-
Cardenal-duque de Richelieu (1585 – 1642, Académia, Sorbonne): É um cardeal que trabalhou para Luis XIV. Pode ser considerado um “Maquiavel afrancesado” – por ser estrategista e fazer com que o rei dependa dele, o seu braço direito, tanto é que foi escritor dele antes de Racine – e o responsável por difundir a Arte – preparou o território para que isso acontecesse com a fundação dos cursos humanos acadêmicos. Construiu espaços físicos e fundou a Academia Francesa. Além disso, estruturou a monarquia para receber o Rei Sol. Era contra a unificação religiosa. Tentou uma cultura central. Na França NÃO HÁ Renascimento, mas o prolongamento do período medieval, além da antecipação do Neoclassicismo promovida por Richelieu.
-
Michel de Montaigne (1533 – 1592): Foi junto aos viajantes às novas terras descobertas pela colonização. A partir disso, desenvolveu tratados para a canalização do humanismo em que era contra a imposição da religião a esses povos. Foi contra o etnocentrismo francês, influenciou os dramaturgos franceses do neoclacissismo, não é cassado – mas financiado pela monarquia –, colocasse no local da camada da sociedade mesmo usando uma linguagem sofisticada.
-
Louis XIV (1638 – 1715): Conhecido como Rei Sol, difundiu a cultura artística não como meta de poder – havia sim, mas não era o foco – como uma maneira de demonstrar toda a sua paixão por essa área. Consegue a unificação Francesa – algo que nem os espanhóis conseguiram. Isso pode ser relacionado aos problemas das invasões de povoados, pagãos, do norte europeu, Normândia. Já a Espanha, sua rival, estava tentando invadir a França, constituída de católicos. Nessa unificação, houve a obrigação de que todos falassem a mesma língua, o francês novo – absolutismo – e para isso foram construídas as universidades. Esse sistema foi considerado sangrento. Fundou a Academia. Legitimou a Dança. Financia Racine e Molière.
-
Nicolas Boileau-Despréaux (1636 – 1711) = Arte Poética (1674): Ela é baseada na Poética de Aristóteles. Foi o verdadeiro inventor da unidade de espaço – Aristóteles jamais falou sobre essa unidade, mas sim de uma ação concentrada para que o público não tenha problemas de compreensão. Definiu o belo como um tipo de catarsis, onde o povo saiu do teatro sem se sentir purgado, mas com a ideia de um espetáculo com um fim em si mesmo e do prazer estético.
Origem
Em
1548, o Parlamento de Paris proibiu a representação dos mistérios.
Apesar disso, fora da capital, o gênero seguiu em vigor. Também se
faziam farsas e moralidades que alcançaram um auge impressionante
durante o reinado de Francisco I. As farsas se representavam incluso
aos tempos de Molière. Por outro lado, o abandono das moralidades e
mistérios travaram por causa da proibição do Parlamento aos
ataques dos poetas renascentistas franceses (o grupo A Pleiade) e
também pelo novo espírito da Reforma.
Os protestantes não viam com bons olhos a Bíblia, acreditando que
ela provocasse o riso no teatro; os católicos, pelo contrário,
estavam de acordo com as representações, pois pensavam que com elas
se manteria o interesse pelos textos sagrados.
Outra
razão foi o declinar deste gênero que se encontra em favor
concedido pelos poetas renascentistas ao teatro antigo, apesar das
reservas antes formuladas, considerado como contrário à tradição
francesa. Traduzia-se do grego ao latim. Novas obras se representavam
nos colégios
de Paris, escritas diretamente em latim.
Os
artistas franceses estavam deslumbrados com a Poética de
Aristóteles, mas as três unidades passaram a serem discutidas. Para
isso, Richelieu criou a Sociedade dos Cinco Autores a fim de
investigá-las. Um dos seus integrantes foi Corneille, que após um
bom estudo escreveu “Le Cid” adquirindo fama.
Após
um tempo, passaram a ver que, por questão de disposição poética,
as leis de ação e lugar eram impossíveis de serem seguidas. Assim,
Corneille foi censurado às leis de moralidade e verossimilhança
pelos seus colegas dramaturgos.
Com
Molière houve a ascensão da comédia burguesa junto aos temas
cotidianos. Após a sua morte, tentou-se a junção do seu grupo e de
outro.
Em
1775, ocorre a fundação da Societé dês Auteurs Dramatiques
(Sociedade dos Autores Dramaturgos) por Beaumaschais para maior apoio
financeiro e cultural aos dramaturgos, pois inventaram uma lei que
“riscava” uma peça se não houvesse determinado de número
público.
Em
1717, Luis XIV morre e, consequentemente, a era teatral também. Os
artistas passam a ser despejados, mas são protegidos por Napoleão
Bonaparte – interesses políticos, pois ele sabia que o teatro era
muito bem visto pelo povo. Porém, essa arte não sobrevive à
Revolução Francesa.
Características:
-
Copiava as demais épocas.
-
Inspiração a partir da Poética de Aristóteles: O texto obedecia
algumas das três unidades. Após um tempo passaram a ver que eram
impossíveis de serem seguidas.
-
Volta aos clássicos Greco-romanos.
-
Tragédias de 5 atos, sendo que no terceiro havia algum conflito; e
comédias de 3 jornadas.
-
Uso de versos alexandrinos.
-
As cenas deviam ter conexão.
-
As peças precisavam ter financiamento
de um rei para se apresentar.
-
Censura para autorizar as peças a serem apresentadas.
-
Não há cenas de nudez.
Tipos:
-
Tragédia: Influência da Poética de Aristóteles; volta aos clássicos grego-romanos; 5 atos sendo o 3º conflituoso; uso de versos alexandrinos; cenas com conexão. Destacam-se Corneille e Racine.
-
Comédia: Assuntos cotidianos com a sátira a grupos sociais; 3 jornadas; cenas com conexão. Destaca-se Molière.
-
Tragicomédia: Não obedecia às unidades aristotélicas; devia ter um final feliz ou conflituoso; o conteúdo deveria ser histórico. Destaca-se Corneille.
-
Pastoral: Aparição de magos e sátiros em uma intriga cheia de peripécias.
-
Tragédia Heróica: Constituído de personagens clássicos em um contexto grego, mas no contexto atual. Típico de um herói nacional.
Estrutura
Cênica:
As
salas eram quase todos de antigos locais destinados ao Jogo de Pelota
(Jeux de Paume), todos de forma retangular. Em Paris, existiam
duzentas destas salas. Assim, foi fácil de ter lugares de
representação. Contavam de um pátio, nele que só se instalava de
pé o público popular masculino, já que as mulheres não
frequentavam
o teatro em 1640. A partir de então, ocuparam os palcos e as
galerias. Os espectadores eram, geralmente, ruidosos e turbulentos,
particularmente os do pátio. Como na Inglaterra, no último terço
do século se introduziu o costume de ceder parte do cenário ao
público nobre. Caso tinha em conta que o cenário era já por si
escasso, este hábito pouco beneficiava o desenrolar do espetáculo.
Havia
o cenário em perspectiva e o uso de cortinas de tecido para esconder
os bastidores. Eles eram pintados de um lado e outro da cortina.
Usavam
iluminação a velas. Houve também a mudança de forma de iluminação
ocasionando o incêndio de inúmeros teatros, inclusive o de Odéon.
-
Palais de Versailles: Peças de Molière apresentadas na casa de Luis XIV. Lá também ocorriam os ensaios nos pátios e jardins. No verão, as peças eram apresentadas na rua; já no inverno, dentro do palácio. É possível que o Rei Sol ditasse partes de obras em seu quarto com os autores.
-
Louvre (1793): Assim como outras construções, foi construído próximo à Revolução Francesa (1789). Ela foi construída no final do Período Medieval = Renascimento Tardio + Neoclássico (Luis XIII até Napoleão)
-
Sala de jantar de Napoleão: Local onde ele oficializou o teatro como instituição pública.
-
Comédie Française (1680): Esteve fechada entre 1793 e 1799.
-
Pêre Lachaile (Tumba de Molière): Com era Ateu, só conseguiu ser enterrado a partir de um acordo que a sua esposa fez com o rei. Ficou na tumba das crianças num local raso – quanto mais fundo, mais cristão era.
Dramaturgos:
-
Pierre Corneille (1606 – 1684): Foi o fundador da tragédia francesa. Inspirou-se em Sêneca, Lucano e Tito Lívio a partir do contato com os jesuítas. Depois de integrar no grupo de pesquisa sobre as unidades da Poética de Aristóteles, desenvolveu “El Cid” alcançando a fama. Apresentava-se no La Plaza Real em 1635. Adaptou as fábulas antigas visando num herói nacional, Tragédias Heroicas em que colocava figuras históricas importantes no modelo clássico e no contexto francês. Algo interessante é que mesmo a França estando em guerra contra a Espanha, ele usou o texto do “El Cid”, um herói espanhol que tenta conquistar determinado território. Os seus heróis eram como super-deuses, não eram deuses, mas figuras humanas que se comportam como deuses, um tipo de deus idealizado. Nele há a defesa de uma Diké, o que é diferente de Calderón onde os personagens agem impostos por outros. Há a mistura do clássico com o nacionalista. Escreve em versos decassílabos rimados sobre a estrutura clássica.
-
Jean Racine (1639 – 1699): Junto a Corneille, foi um grande dramaturgo trágico. Colocava fatalidade em suas peças, mas sem explorar a crueldade em cena. Dava importância à palavra, denotando a dificuldade da tradução e compreensão de suas obras. Não via as unidades aristotélicas como obrigação, mas um meio de atingir o psicológico. É o legítimo dramaturgo de gabinete da corte. Faz tragédias clássicas para que algo seja útil à Corte.
-
Molière (1622 – 1673): Jean-Baptiste Poquelin, foi o grande comediógrafo francês. Desenvolveu a haute comédie – comédia clássica francesa. Havia fracassado na tragédie classique. Fundou a companhia L’Illustre théatre (O Teatro Ilustre) junto à atriz Madeleine Béjart. Após as apresentações nas ruas, foi admitido pela trupe do rei Luis XIV: “Monsieus de frere unique du Rei”. Ganhou o palco do Petit Boubon e depois, em 1661, o Palais Royal. Construiu o comédie-ballet para realizar jogos de entretenimento à Corte. Investiu na comédia cotidiana com temas contra a corte e a sociedade. Foi influenciado pela Comédie Italienne. Fundamenta-se na atuação de Tibério Fionilli, o Scaramuccia. Monta as peças de Racine. Influenciado pelo teatro de feira, commédia dell’arte e comédia de Corneille. Anti-aristotélico, os seus textos são improvisados e jamais fez adaptações.
Companhias
-
L’ilustre Théâtre (Morte de Molière, em 1673) + Théâtre Du Marais (troupe pequena) = Théâtre Du Guénegard: Após a morte de Molière, as duas troupes se juntaram e se estabeleceram num local com o mesmo nome da resultante.
-
Théâtre Du Guénegard (Luis XIV, 1680) + Les Comediens Du Roi de l’Hôtel de Bourgogne (Racine, financiado pelo Rei) = Comédie Française no Theatre Guénegard (até 1689) – Rue de l’ancienne Comédie (até 1770) - Tullenies (até 1789): Fusão de trágico com comédia para o rei não financiar duas companhias francesas
-
Théâtre de l’Odéon (1789) = Comédie – liberais Rue de Richeliu; incêndio do Odéon (1799): Fundação do Odéon que abriga a Comédie Française que se divide.
-
1803 – Reunificação da Comédie (Napoleão)
-
1816 – Nova companhia se instala no novo Théâtre de l’Odéon (rivalidade)
-
OdéonComédie FrançaiseEstiloClássicos; monarquiaClássicos no início e depois algo revolucionário; popularEstética TextualVersoProsaAutoresInspirados nos autores clássicos francesesVoltaire, Diderot e MelcierPolíticaConservadoresLiberaisEstética CênicaMudança gestual; luz apagada, pois a ação ocorre no palco; figurino da realidade do período.Público iluminado para ser visto; roupas sem reconstituir a realidade do período.FinanciamentoGrandes produções financiadas pelo EstadoFinanciamento precário do Estado
Nenhum comentário:
Postar um comentário