terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Brecht


- “É doce e honroso morrer pela pátria”.
- A igualdade social e o pacifismo atraíram Brecht para o marxismo no início dos anos 1920. A revolução russa de 1917 e os acontecimentos que levaram à morte de Karl Liebknecht e de Rosa Luxemburgo, líderes do movimento espartaquista, o impressionaram vivamente. Brecht segue o movimento com interesse e vê de perto o horror da guerra imperialista enquanto, como estudante de Medicina, estagiava no hospital de Augsburg. Durante seu estágio no hospital de Augsburg, conheceu de perto a violência do homem, a podridão dos cadáveres, a putrefação, a morte como realidade material.
- Brecht aproxima-se por algum tempo do grupo de jovens artistas de oposição que gravitava em torno de Erwin Piscator (1893-1966). Inspirado na agit-prop russa, Piscator tinha como objetivo transformar o palco numa tribuna política. Palcos giratórios, telas para a projeção de filmes ou slides, bastidores móveis, esteiras rolantes, plataformas para ações simultâneas eram elementos utilizados no estudo e na prática das técnicas de direção teatral criadas pelo grupo de Piscator. O teatro de agit-prop pretendia levar as doutrinas marxistas-leninistas a um público em grande parte iletrado: o operariado alemão. Para ele, as cenas grandiloquentes não levariam os operários a sair às ruas.
- A busca por uma nova forma de encenação, por um teatro anti-culinário, não-aristotélico, épico.
- A inserção do narrador é o que mais distancia esta nova forma do teatro aristotélico, impondo ao espectador uma tomada de posição em relação à ação que se desenrola no palco. A influência do modelo do teatro clássico chinês é marcante. A história (fábula), narrada do ponto de vista do autor, não tem continuidade e se desenvolve em saltos, retrocessos, contradições. O teatro aristotélico, por sua vez, exigia a unidade de lugar, tempo e ação.  Nas observações sobre Mahagonny, Brecht define o teatro épico, o ambiente (cenário) em que ele é encenado, a ausência da quarta parede (que fazia desaparecer o espectador) e a atitude dos atores com relação a seus papéis. Teses como a da não-identificação do espectador com as personagens, a do efeito distanciamento (Verfremdungeffekt ou, para simplificar, efeito V), a da oposição entre sentimento e razão, entre outras, estão representadas ou sugeridas em dois esquemas do quadro que ele preparou para mostrar as diferenças profundas entre o teatro épico e o teatro dramático. Comparando teatro dramático e teatro épico, Brecht mostra as diferenças entre as duas formas, sem que isso represente estabelecê-las em pólos opostos, mas sim caracterizadas por divergências de acento. O público deverá manter-se lúcido na representação de uma peça sua graças à atitude narrativa imprimida a todos os elementos do espetáculo, inclusive a música. O objetivo principal do teatro épico é a desmistificação
- A pobreza e a estupidez não são mais tratadas como algo da vida, mas como algo que pode ser modificado.
- Brecht é atual por ter discutido as concepções do ser humano.
- A ação tem sempre algo de insólito. Nunca nos surge como realmente presente. Distancia-se à maneira de uma narração. Será sempre «historiada». Não decorre num tempo homogêneo com o real, e será interrompida por cantos e comentários, ruptura que será sublinhada pela representação dos atores. Será representada de tal forma que seja evidente que os atores conhecem as diferentes fases e o desenlace. Cartazes e projeções no início de cada cena reunirão o seu conteúdo para evitar o efeito surpresa.
- O efeito de distanciamento se originou a partir da análise do Teatro Chinês com a Ópera de Pequim. O ator chinês tinha uma sensação de auto-observação.
- O que ajuda a manter o distanciamento no ator: uso da terceira pessoa e do passado e a enunciação das rubricas, anotações e explicações.
- “Numa sociedade tida por criminosa segundo a concepção expressionista, o criminoso, ao negar a sociedade, é por assim dizer puro. Nesta fase, Brecht não nega a burguesia através do proletariado e sim através do vagabundo, do homem à margem da sociedade.”
- Brecht largou o Teatro de Vanguarda ao perceber que ele condenava o homem a uma existência absurda.
- Seu estilo é uma mescla dos existentes nos anos 20 e 30.
- “Como Piscator, gostava de obter efeitos por meios teatrais novos e pelo emprego de truques inesperados.”
- Peças que despertam a verdade ao invés da emoção.
- Teatro Épico: Uso de narração.
- Trilha sonora que rompe a ação como método de distanciamento.
- Minimizar os estados mais sentimentais para que não emocione o espectador, mas seja algo mais racional a fim de que se analise a cena.
- “Mãe Coragem” é a sua primeira montagem. No elenco está presente a atriz Helene Weigel.
- No filme “Mãe Coragem” é visível o efeito de distanciamento a partir do uso da música, gestos e atuação sem emoções, mas com um quê teatral. Um exemplo é o jeito de andar, com passos largos, da personagem “central”. Além disso, vale destacar o tratamento da mãe com os seus filhos. Quando um deles é assassinado, ao invés de se desesperar, ela dá um grito “mudo”, sem grandiosas expressões, a fim de que o espectador analise a situação.
- Junção do crível com o excesso teatral, ou seja, a atuação tem seus elementos verossímeis, mas quando chega um momento de forte impacto emocional, ele se distancia da cena e a analise falando na terceira pessoa.
- Brecht sempre participou da produção de suas obras.
- Em “Eduardo II”, ele usa elementos do expressionismo como a não expressão além do que é transpassado a partir da aparência do ator para narrar o estado do personagem.
- Uso de projetores para mostrar assuntos históricos distintos, ou seja, atuação conjunta. Como é o caso de Piscator.
- Carl Valentin: Montava peças cômicas. Além disso, começou a conhecer o teatro épico e auxiliar Brecht.
- Em 1933, Brecht abandona a Alemanha em exílio.
- Ruth Berlau: amante de Brecht. Há um livro, biográfico, sobre ele. Além disso, ela tem um grupo de agit-prop, ou seja, propaganda de agitação.
- Os teatros expressionistas eram financiados pelo Partido Comunista.
- Brecht sofreu influências do Teatro Expressionista. Porém, ele não introduziu esse movimento e o distanciamento nas obras nesse período.
- Escreveu a maior parte das peças para Helene Weigel.

Forma Dramática de Teatro
Forma Épica de Teatro
Atuando
Canta, narra
Envolve o espectador numa ação cênica
Faz dele um observador, porém depende sua atividade
Propicia-lhe sentimentos
Obriga-o a decisões
Proporciona-lhe emoções
Proporciona-lhe conhecimento
O espectador é manipulado em uma ação
Ele é confrontado a ele
Apela-se à sugestão
Apela-se aos argumentos
Os sentimentos são conservados
Impelido até o conhecimento
O homem é supostamente conhecível
Ele é o objeto da busca
O homem é imutável
Ele se transforma e transforma
Interesse apaixonado pelo desenlace
Interesse apaixonado pelo desenvolvimento cada cena por si
Uma cena prepara a seguinte
Com similaridades
O mundo como ele é
O mundo como ele virá a ser


Um Realismo Épico”

- “Para abordar a obra de Brecht, é necessário recusar tanto as oposições quanto as aproximações convencionais.” – p281
- “Uma poesia que nunca nega o realismo, e um realismo que nunca é naturalismo.” – p281
- Surgiu junto ao naturalismo e expressionismo. O primeiro é monolítico, tornando-se seu próprio símbolo. O outro é o mundo e o homem se dissolvendo mutuamente.
- Neue Sachilüchkeit (Alemanha, 1923): Inspiração de Piscator, ele opõe-se ao naturalismo e expressionismo. É a tentativa de um apego concreto à realidade via descrição. Nele os dramaturgos procuram representar, no palco, a vida sem nada de artístico.
- Zeitstück: Usar pedaços crus de realidade sem colocá-los numa sequência causal.
- “Baal”: é o “adeus” de Brecht ao expressionismo.
- “Tambores da Noite”: É a recusa do mundo.
- “O que vale para ele é a realidade, uma realidade que pode ver e tocar, e não os fantasmas expressionistas.” – p285
- “Eduardo II”: “A inclusão de detalhes naturalistas em um grande afresco histórico.” – p286. Cenas realistas + sucessão de partidas de pôquer.
- Gemistlüchkeit: Sentimentalidade.
- Brecht rompe com o teatro romântico na Alemanha.
- Segment-bühne: “palco hemisférico com planos múltiplos.” – p286
- Diferente de Piscator, Brecht não inicia expondo a história entre o homem com o homem e/ou com a história, o espectador é quem deve tirar suas próprias conclusões.
- “Não representa apenas o mundo, um mundo sem fissuras, como o faziam os naturalistas, nem a ausência de um mundo assim, à moda expressionista; ele nos mostra seres situados em um lugar e em um momento particulares.” – p287
- Não dá significados, mas relações com o mundo, para que não use elementos possíveis em qualquer época.
- Vida cotidiana + painel histórico = Construção em partes destacadas ou destacáveis, ou seja, relação entre homem e mundo.
- O sentido global nunca é deixado expresso claramente, o espectador é quem deve refletir sobre isso. Então, havia a possibilidade de múltiplas interpretações.
- O ator deve se mostrar aos poucos.
- Não há interação possível entre o homem e o mundo. A solução é a renúncia, o Einversdandmin (o de estar de acordo com...)
- “Antinaturalista, porque recusa a dissolução do homem no mundo, anti-expressionista, porque rejeita a ruptura com o mundo, a obra de Brecht baseia-se nesta necessidade de transformar a sociedade, e, para transformá-la deve conhecê-la. Seu ponto de partida é a contestação da natureza como tal.” – p293. Para isso, ele contesta a natureza burguesa.
- “É mais que o instrumento de uma tomada de consciência, é a imagem de um trabalho alegre, de um parto coletivo.” – p298
- “As imagens recriadas não devem predominar sobre o que é recriado.” – p298
- “A maneira mais fácil de existir está na arte.” – p298

Distanciamento, Para quê?”
- “Felizmente Bertold Brecht faz com sua própria teoria o que fazem com todas as teorias dos verdadeiros homens de teatro: desenha aplicá-la.” – Jean-Jacques Gautier – p313
- Considera o modo como os objetos são usados nas peças dadaístas e surrealistas, “frutos” de um distanciamento, mas que não distancia.
- Os textos dele nasceram na experiência do dramaturgo ou do encenador.
- Priem Ostrannenija (Chklovski – 1917): “Sombrear a forma, sem aumentar a dificuldade e a duração da percepção.” – p318.
- Jogos de distanciamento de Meyerhold:
a) Antejogo: O ator mostra, a partir de pantomima, a sua próxima ação.
b) Jogo-às-avessas: O ator lembra ao público que está representando.
- Entfrendung: “Processo de alienação do homem na sociedade de exploração.” – p319
- “E tal ‘distanciamento-desalienação’ deve intervir em todos os níveis da representação.” – p319
- “Brecht desejava desenvolver duas artes: a arte do ator e o meio da tomada de consciência histórica.” – p320
- “Um método de reflexão e de trabalho artístico válido para todos aqueles que desejam ‘um teatro engajado de realidade’.” – p321

Brecht para iniciantes” – Michael Thoss e Patrick Boussignac

- Contexto: Imperialismo – sendo que a França, Inglaterra e Rússia estavam em estado de colonizar outros ambientes.
- Para não ser convocado na I Guerra Mundial, Brecht cursa medicina, mas é chamado para atuar num hospital militar em Augsburgo, no setor de doenças venéreas. Ele denuncia tudo no poema: “A lenda do soldado morto.”
- 9/11/1918: República de Weimar presidido pelo primeiro presidente Friedrich Ebert.
- Munique: Centro da Boêmia e da vanguarda alemãs.
- Brecht herda de Karl Valentin o gosto pelo grotesco e a sátira mordaz. Em sua homenagem, escreve várias sátiras curtas, estilo “soties” francesas. Ex.: “O Casamento do Pequeno Burguês”.
- Foi eleito delegado num Conselho de Soldados (pessoas que elegem deputados que delegam Comissários do povo para missões governamentais) e esconde um revolucionário em sua casa.
- “Tambores da Noite” (“Spartakus”): Sobre a Revolução na Alemanha.
- Ataca o Expressionismo no jornal “Der Volkswille”, onde é crítico teatral. Pois não vê um mundo idealista, mas materialista.
- Odeia a noção de arte pura.
- Admira Chaplin por ter um repertório de gestos modernos.
- “Da selva das cidades”: Inspirado em “A Selva”, de Upton Sinclair. Situa a peça na Chicago de 1912.
- Evita o sentimentalismo e as falsas declamações nas atuações de “Eduardo II”. Foi nos ensaios que encontrou o épico ao pintar de giz o rosto dos soldados.
- “Um homem é um homem”: Usa, pela primeira vez, canções e diálogos com o público para manter distância.
- Admira o boxe pelo seu público, que não se veste como os burgueses, o contrário dos teatros.
- Preferência ao desenvolvimento lógico da ação que ao psicológico dos personagens. Por isso a preferência por romances policiais, principalmente aos ingleses.
- Aproximação a Piscator que queria que o palco fosse uma tribuna política. Além disso, ele aderiu a AGIT-PROP.
- Palcos giratórios, telas para projeções de filmes e slides, bastidores móveis, plataformas para ações simultâneas, esteiras rolantes,...
- A AGIT-PROP faz surgir vários grupos de atores ambulantes.
- Ao contrário de Piscator, ele não quer cenários, mas mostrar a maquinaria do teatro (distanciamento).
- “A Ópera dos Quatro Vinténs”: Inspirado na “Ópera dos Mendigos” de John Gay.
- “Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny”: Músicas que comentam o texto.
- Lema: “Uma grande arte sempre serve a grandes interesses.”
- “O vôo sobre o oceano”: Peça radiofônica para crianças, sendo que é a primeira peça didática sua.
- “A peça didática de Baden-Baden sobre o Acordo”: Busca pela coletividade.
- “Kuhle Wampe”: Primeiro e último filme.
- “Santa Joana dos Matadouros”: Inspiração em “Joana D’Arc” de Schiller.
- Inspiração no teatro asiático (usa gestos do Nô em seus espetáculos) e em Meyerhold.
- Após a confusão com a polícia na peça “A mãe”, elas não são mais encenadas.
- “Cabeças redondas e cabeças pontudas”: Peça apreendida pelos nazistas. Nela é usado, pela primeira vez, o termo “VERFREMDUNGSEFFEKT” (Efeito de Distanciamento).
- “Os Horácios e os Curiácios”: Encerra o ciclo didático.
- Junho/1935: “Congresso Internacional de Escritores pela Defesa da Cultura”, na Mutualité, em Paris. Lá houve a participação de escritores de 37 países que organizaram uma frente contra o fascismo.
- Junho/1936: Guerra da Espanha. Sendo que Brecht apóia os espanhóis. Além disso, inspira-se para escrever a peça: “Os fuzis da Senhora Carrar”.
- Usa parábolas a fim de explicar, de maneira simples, os fenômenos complexos de nossa sociedade.
- Finlândia (Abril/1940): Decadência econômica.
- “Para Brecht, o nazismo não é o contrário da democracia, mas sua deformação em tempo de crise”. – p147
- Uso de rima clássica para auxiliar no distanciamento.
- Tenta Hollywood e Broadway, mas é negado por seus textos serem políticos demais.
- Após o ataque das bombas de Hiroshima e Nagasaki, em Agosto de 1945, Brecht se volta contra as ciências. Sendo que, antes, as considerava um meio de progresso humano.
- Berliner Ensemble: Foi fundado por Brecht e Weigel. Lá se faziam adaptações de peças clássicas e do realismo socialista.

- Brecht morre em 14/08/1956.

Nenhum comentário: